Por Léo Santos...
Sabia que a esposa o traía, só não queria que lhe revelassem. Por volta das três da tarde, no escritório, foi surpreendido por um recado, digamos, chato: - "Fernando, estou indo aí agora, preciso falar contigo, é urgente!" Era seu primo, o Flávio - que há muito tentava desmascarar a esposa de Fernando. Não haviam sido poucas as vezes em que Flávio tentara expor suas desconfianças ao primo, porém Fernando fugia feito uma lebre e não se deixava alertar jamais. - Dona Alice, por favor! chamou a secretária pelo interfone. - Pois não, Dr. Fernando. - Faz quantos minutos que a senhora recebeu esse recado? - Cerca de meia hora, doutor. - O quê? Meia hora! Fernando deixou transparecer tanto terror em sua face que acabou assustando a pobre moça: - Mas, doutor, o senhor estava em reunião e... - Fique calma, Dona Alice – a muito custo, fingia tranquilidade – só lhe peço que em se tratando de meu primo Flávio, transmita-me os recados imediatamente, interfira nas reuniões se for preciso, “mas me mantenha a par das intenções desse ordinário” – confesso ao leitor que meu personagem não chegou a proferir a oração entre aspas, embora a tenha pensado. Assim que dispensou a presença da secretária deu de mãos no telefone: - Alô? tudo bem, Dona Sílvia? gostaria que a senhora informasse a meu primo, o Flávio, que eu estou saindo agora, à tarde, para uma viagem e não poderei recebê-lo, mas não faltarão oportunidades... o quê? ele saiu faz vinte minutos? ah, sim... já deve estar chegando aqui? ok, obrigado, Dona Sílvia, muito obrigado! Repôs o telefone no gancho, foi até o cabide, vestiu o paletó e ajeitou a gravata. Pegou sua maleta e chaveando a porta do seu cubículo, dirigiu-se à sala do Diretor. - Sinto muito, Fernando, mas você não pode sair agora, os japoneses estarão aqui em questão de minutos, esqueceu? você é o palestrante! - Mas chefe... - Não quero saber, Fernando, se tivesses me avisado antes... mas agora não dá, simplesmente não dá! Saiu da diretoria e se foi corredor a fora, a passos largos, decidiu sumir de dentro daquela empresa a qualquer custo. Quando estava chegando ao final do saguão, viu abrirem-se as portas do elevador e de dentro surgir uma corja de japoneses, todos iguaizinhos com seus ternos pretos e seus óculos de grau, exceto um sujeito que vestia calça jeans e tênis. - Que droga! é o Flávio. Fernando deu as costas e foi saindo em direção ao outro lado, onde poderia tomar o elevador de serviço, antes de virar a curva, ainda pôde ouvir um berro do primo em meio ao bate-boca ininteligível dos empresários orientais: - Fernando! Dois funcionários tentavam enfiar uma mesa enorme dentro do tal elevador quando Fernando chegou desesperado dizendo: - Com licença, com licença... Entrou e desceu direto para o subsolo, porém não conseguia encontrar a chave do carro, metia as mãos pelos bolsos da calça, do casaco, da camisa, abriu a maleta e pôs-se a escarafunchar em meio à papelada até que, descontrolado, espalhou a coisarada toda pelo chão e não encontrando a maldita chave, começava pisotear os documentos quando ouviu um som: - Plim! Virou-se para o mostrador do elevador e sentiu um arrepio nas vértebras ao visualizar uma contagem regressiva. O Flávio estava descendo, precisava sair dali. Subiu pelas escadas até o térreo e, saindo à rua, abordou um táxi. - Pra onde, patrão? - Vamos embora daqui, por favor, pra qualquer lugar. Mal o motorista arrancou e já o Flávio apontou na porta da empresa: - Fernando! Fernando! Fernando! Era tarde demais, o táxi foi seguindo pela avenida, deixando pra trás a imagem nervosa do primo. Algumas quadras adiante, parado numa sinaleira, Fernando viu Flávio descer, indignado, da carona de um motoqueiro, dar um soco no vidro do táxi e gritar: - Fernando, tu é corno!
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