Fac-simile da página 5, Caderno Natal, do jornal Tribuna do Norte de hoje
Sant’Ana e o ‘Caicocentrismo’
Roberto Fontes
Hoje, quando a imagem da Senhora Sant’Ana completar o percurso de pouco mais de três quilômetros pelas ruas e avenidas do centro de Caicó, carregada nos ombros de fieis devotos e peregrinos, completa-se 263 anos de uma tradição iniciada em 26 de julho de 1748. Naquela data, o padre Francisco Alves Maia ergueu um cruzeiro onde hoje está construída a Catedral de Sant’Ana e inaugurou o culto à mãe de Maria e avó de Jesus, prática que se irradiou por toda a região do Seridó.
De uma festa interiorana, circunscrita a algumas cidades seridoenses, a Festa de Sant’Ana tomou dimensões épicas ao longo destes dois séculos e meio de existência, principalmente pela pujança da celebração que é feita em Caicó. Não há, aqui, qualquer menosprezo às festas realizadas em Currais Novos, Santana do Matos, Santana do Seridó, Campo Grande (no Oeste) e até mesmo em Natal. Mas o fato é que a Festa de Sant’Ana de Caicó saiu do gueto e tomou dimensão nacional.
Tanto que o IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – vai entregar hoje às mãos do Bispo Diocesano D. Manoel Pedreira o certificado de Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil à Festa de Sant’Ana de Caicó. O reconhecimento foi feito desde o ano passado, mas hoje será oficializado na presença dos milhares de devotos e peregrinos que, repetindo um gesto de fé e devoção iniciado há 263 anos, estão em Caicó para a Procissão de Encerramento.
É a terceira festa religiosa brasileira a ter a chancela do IPHAN como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Significa simbolicamente que, de hoje em diante, a Festa de Sant’Ana de Caicó terá a mesma importância cultural para o Brasil que o Círio de Nazaré em Belém do Pará tem, desde 2004, e a Festa do Divino Espírito Santo de Pirenópolis, Goiás, desde 2010, e outras 19 manifestações culturais das mais diversas regiões. Mas por que a Festa de Sant’Ana de Caicó alcançou este status?
Com a palavra o IPHAN: “É uma celebração tradicional que ocorre há mais de 260 anos e reúne diversos rituais religiosos, profanos e outras manifestações culturais da região do Seridó norte-rio-grandense. Além de uma celebração representativa para este município (Caicó), ela permite também vislumbrar a diversidade das manifestações culturais e possibilita a compreensão abrangente do Seridó potiguar”. Tem algo mais: Sant'Ana é considerada pelos devotos um elo entre Deus e a salvação.
Como bem disse o procurador federal aposentado e ex-prefeito de Caicó Francisco de Assis Medeiros, o povo aproveita a Festa de Sant’Ana para viver tradições, praticar a fé e mostrar a sua devoção, amor e emoção à padroeira. “Na Festa de Sant’Ana de Caicó, a tradição secular mistura-se aos costumes mais modernos. Velhos e jovens, abraçados à mesma bandeira religiosa, celebram o vigor da cultura seridoense, sempre renovada através dos séculos”. Definitivamente, é isso mesmo.
E aquele ‘Caicocentrismo’ do título? A internet abriga um sítio extremamente bem humorado chamado Desciclopédia, uma espécie de Wikipédia do B. Lá, um dos verbetes mais interessantes e engraçados é justamente o ‘Caicocentrismo’, que tenta explicar com humor o propalado bairrismo do caicoense. Mas, afinal, o que é o ‘Caicocentrismo’? É a teoria, segundo a qual, Caicó é o centro do universo. Agora, depois que a Festa de Sant’Ana é Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, alguém duvida?
Jornalista, devoto de Sant’Ana, editor do Bar de Ferreirinha
Artigo pulicado na edição de hoje do jornal Tribuna do Norte

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