De olho no mundo
Há pouco mais de um mês reencontrei um amigo num lugar absolutamente improvável. Eu participava de um Congresso Internacional no Pavilhão do Anhembi, em São Paulo, cidade com mais de 15 milhões de habitantes, onde a possibilidade de você encontrar alguém é próxima do zero absoluto.
Pois ele estava lá: o querido amigo Heraldo Palmeira, seridoense de Acari, músico, compositor, poeta, jornalista, produtor cultural, um homem que é cidadão do mundo com a raiz fincada no solo mais profundo e fértil do Seridó. Em meia hora colocamos os assuntos em dia, matamos as saudades, conversamos sobre a terrinha, Sant’Ana e Daguia...
Aquela conversa foi o embrião da estréia de hoje, no Bar de Ferreirinha. Ele me disse que é leitor do blogue, que tinha ficado puto porque perdeu o seu domínio, e que estava sentindo falta do espaço no heraldopalmeira.com, surrupiado por um americano escroto, que agora quer lhe revender o que era seu por módicos mil e poucos dólares...
Enfim, como um lutador de boxe, senti o momento propício e apliquei-lhe um cruzado de direita na taba do queixo: convidei-o para escrever uma coluna semanal no Bar de Ferreirinha sobre qualquer assunto. Nocaute! “Ser recebido numa casa como essa não tem preço, por tudo que ela representa, a partir da inquietação criativa”, disse-me, num dos e-mails mais recentes.
Bem, pra felicidade dos mais de 1000 bêbados que acessam este bar diariamente, hoje Heraldo Palmeia estreia a sua coluna De olho no mundo, um olhar diferente sobre as coisas que são contadas do mesmo jeito nos jornais, revistas, blogues, rádios e TVs. Com Heraldo, elas terão o tempero do Seridó. Toda segunda-feira, aqui no Bar. Boa leitura!
Roberto Fontes
comanda
Com muito orgulho, me encostei aqui neste pé de balcão do Bar de Ferreirinha. Pouco depois que saí de Acari, ainda menino, comecei a gastar sola pelo mei do mundo, com a antena das oiças ligada para ouvir um tanto de histórias, que resolvi trazer de bandeja. Como deve ser em qualquer balcão de responsa.
Definitivamente, a Noruega não merecia uma patifaria daquele tamanho.
O Uruguai acabou com aquele futebol falsificado do Paraguai. E deverá ser osso duro de roer na Copa de 14. Já nos deu o Maracanaço em 1950 e deve vir com gostinho de quero mais.
Como dizia Moisés Sesiom em trecho de seu poema mais célebre, “O peido que a doida deu, quase não cabe no cu”. Desde que a doida saiu das bandas do Açu e foi vista numa galeria subterrânea do Rio, começou essa cachorrada de bueiro voando pelos ares.
Eike Batista, aquele perucudo com cara de Egito antigo que empresta os brinquedinhos voadores ao governador Sérgio Cabral, está negociando sociedade com a Renault numa fábrica no Rio. Provando que amigo é pra acudir outro, o governo fluminense está comprando uns carrinhos para a polícia, coisa de 1.508 viaturas. O escolhido foi exatamente o Logan, aquela fubica que custa R$ 36 mil (na versão completa). Mas esses, para soldado andar, saem um tiquinho mais caros: R$ 154.476,00. Diz a turma do governador que essa diferençazinha é por causa das “adaptações” para transformar carro em viatura.
Não tenho paciência para ver um papangu de vazante como esse tal de Neymar virar o modelo de tudo no mundo, por conta de duas ou três firulas. Craque que só joga jogo sim e oito não? Quando eu vi aquela cara de fuinha oreiúda com uma coroa escrito Reymar na cabeça, na capa da Veja, cantei a pedra lá em casa: “vai mascarar!”. Na idade dele, Pelé já andava noivo da bola com 500 gols enfiados. Por isso mesmo a cadeira de majestade da bola continua vazia desde que o afrodescendentão deixou os gramados. E se esse cabrinha não abrir o olho, vai dar vexame na Europa.
E quem danado aguenta esses peladeiros cheios de assessores, que se depilam e viram araras de butique, prontos para vender até a mãe na publicidade? Bola que é bom, nada. E vivo me perguntando: de que tanto ri Robinho nos treinos da Seleção? Será propaganda de algum dentista? Esse outro peladeiro é mesmo um triatleta: corre, pedala e nada.
Numa festa agropecuária no interior de São Paulo, um pai estava abraçado ao filho. Foram cercados por vândalos homofóbicos, e apanharam a ponto de o pai perder boa parte de uma orelha. Tudo porque, aos olhos desses criminosos, duas pessoas do mesmo sexo abraçadas é algo intolerável.
O Brasil é líder mundial em homofobia. Bahia, Alagoas e São Paulo, nessa ordem, seguem líderes desse vergonhoso campeonato nacional. Cantei a pedra lá em casa: “do jeito que está sendo conduzido, esse projeto de lei contra a homofobia vai aumentar a intolerância e a violência contra os gays”. Apostar em discussões rasteiras, vaidades pessoais, afrontas, provocações e extremismos, só prejudica os interesses coletivos.
Com o faro sempre aguçadíssimo e percebendo que esse movimento está saindo da racionalidade e do controle, a direção da Rede Globo convocou os autores da novela Insensato coração e foi taxativa: está proibido instigar beijos gays, iras e preconceitos de parte a parte na trama. Nada de bandeira política, nada de polêmica, nada de defesa à criação de lei para punir homofobia. Pode continuar apenas o humor das cenas do personagem Roni (Leonardo Miggiorin). Temendo incentivar extremismos nas ruas, a emissora fechou a vitrine gigantesca que vinha ajudando a sociedade a conviver com a homoafetividade com menos preconceito.
Ao invés de tantas leis específicas, bastaria que o país dispusesse de uma única lei, severíssima, aplicada contra qualquer um que agredisse qualquer pessoa – idoso, criança, mulher, negro, índio, mendigo, homossexual... Uma lei que incluísse também os matadores do trânsito e não desse direito a fiança, obedecesse a rito sumário e que permitisse um único tipo de progressão de pena: o passar do tempo atrás das grades. Aí os valentões de plantão certamente pensariam duas vezes.
Explodiu publicamente, enfim, a verdadeira função do Ministério dos Transportes: transportar dinheiro público para o patrimônio privado da corja que trafega em seus porões. Coisa antiga. Em novembro/2006, a Casa Civil recebeu denúncia anônima a respeito de desmandos na pasta. Entretanto, a ilustre Erenice Guerra, então braço direito de uma Dilma ainda ministra, resolveu que a investigação não seria conveniente, para não prejudicar a “governabilidade” de Lula da Silva.
Depois que o avião da NOAR foi ao chão, começam a surgir as evidências de uma tragédia anunciada. Em apenas nove meses de uso, 75 ocorrências de problemas técnicos. Isso dá uma média de duas ocorrências por semana. E ninguém dá notícia de qualquer tradição da indústria tcheca na aviação. Tanto que os comandos hidráulicos desse modelo de avião exigem esforços físicos redobrados da tripulação. O cenário na aviação regional brasileira é algo parecido com um barril de pólvora.
A esquerda festiva esperneou e escorregou. Uma nova autópsia foi feita e não deixa a História mentir: Salvador Allende, o presidente que inviabilizou o Chile e, de quebra, empurrou o país, de mão beijada, para a tirania de Augusto Pinochet, se matou com um tiro duplo de fuzil, possibilidade que o AK-47 permite. Sem ajuda de ninguém.
O espírito de Pablo Neruda recuperou a leveza diante da brisa marítima do Pacífico, em Isla Negra. Afinal, seu cadáver seria o próximo a ser profanado naquele paraíso marinho, em busca de um assassinato que só ocorreu na cabeça dessa mesma esquerda festiva. Desocupada. Delirante em suas teorias conspiratórias. Ultrapassada.
Miguel Nicolelis andou dizendo que os políticos do RN ainda estão na Idade Média. Está reclamando de quê? No resto do país, a classe política permanece estacionada na Idade da Pedra. Lascada.
Amy Winehouse, cantora genial, resolveu brincar com fogo desde cedo e terminou se queimando. Mantendo a sina de estrelas que apagaram aos 27 anos – Hendrix, Joplin, Morrison, Cobain – ela se foi, precoce, misteriosamente nessa mesma idade cujos noves fora dá nada. A indústria é a grande beneficiada dessa fatalidade, pois ganha mais um mito para explorar pelos séculos dos séculos.
Em abril de 2012 a turma do Casseta & Planeta estará de volta à Globo, com o programa Casseta vai fundo.
Enquanto Sant’Ana reina em Caicó e Currais Novos, Nossa Senhora da Guia já se prepara para seu agosto em Acari. E Remeidinho já está na fila, em Cruzeta, esperando outubro chegar. Até lá, há muito por comemorar diante dos altares do Seridó. Ave-Maria! Cheia de graça. Sempre. Amém.
alarido
“Areia no frinfa dos outros é pênalti.”
(Zé Prativai, filósofo amigo da coluna)
“Os pênaltis da Seleção foram batidos pelo Dnit. Todos desviados.”
(Marco Aurélio, chargista)
“Não se preocupe, nada vai dar certo.”
(Armando Costa, fundador do Teatro Opinião, sempre que estava de ressaca)
“O Dnit deveria mudar de nome para Dmit. Dmit todo mundo.”
(Zé Simão, jornalista)
“Com o feminismo, hoje o homem é apenas um pau mandado.”
(Millôr Fernandes, mestre)
“Esse kit eu aprovo.”
(Jair Bolsonaro, deputado, em comercial de calcinha da Duloren, em fase de produção)
“O socialismo dura até acabar o dinheiro dos outros.”
(Margareth Tatcher, política britânica)
“Tem dias que eu fico triste. Quando acontece alguma coisa errada no governo, eu fico triste.”
(Dilma Rousseff, candidata à tristeza sem fim)
fiado
Fernando de Noronha é Patrimônio Mundial Natural. Mesmo assim, sua central elétrica é movida a óleo diesel, a fonte de energia mais poluente de todas. Deve ser por falta de vento que lá não se instala aquela ruma de cata-vento que gera energia limpa.

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