Logo mais à tarde os católicos de Caicó realizarão mais uma procissão de encerramento da festa da sua padroeira, a gloriosa Sant'Ana, tradição que vem dos nossos avós do século 18. É a maior demonstração da fé inabalável nascida de um milagre à beira de um rio morto de aridez, onde, em plena e rigorosa seca, há quase trezentos anos, instantaneamente brotou um poço perene para saciar a sede das pessoas e do gado.
É esse o testemunho que ninguém jamais ousou contestar, mesmo porque fé de origem tão evidente é inabalável. O poço permanece ativo à vista de todos, de inverno a inverno, atravessando os longos períodos de estiagem, não obstante às lamentáveis agressões humanas que quase o tem levado ao desaparecimento, seja pela poluição, seja pelas construções ao seu entorno, seja no passado recente pelo bombeamento em excesso da sua água para fins diversos. Tem resistido a tudo e a todos. Com o estoicismo de Davi ao enfrentar o dragão dos filisteus.
A grande procissão que há quase três séculos se repete é a ocasião dos agradecimentos, das despedidas, do pagamento de promessas por graças alcançadas, de fervorosas orações e, acima de tudo, da formulação de novos pedidos, novas promessas e novas revelações de fé, amor, devoção e religiosidade.
Um velho amigo, caicoense da minha geração, já sofreu dois infartos. No último, há mais de dez anos, ao ser encaminhado à UTI, desenganado pelos médicos, dirigiu voto a Sant'Ana: Se não morresse no hospital, enquanto vida lhe restasse, iria a Caicó no último dia da Festa, deixar o dízimo dele, discretamente, na arca da Catedral. Igual quantia daria à pessoa mais velha e pobre que encontrasse pedindo esmolas nas ruas de cidade.
Contou-me que, numa dessas Festas de Sant'Ana, um velhinho ao receber o envelope com o dinheiro disse, sem abrir o envelope: Filho de Deus, dia desses sonhei que acompanhava a procissão, e, repentinamente, sem pronunciar uma só palavra, alguém me dava uma esmola de dois contos de reis, dinheiro senhor em que nunca peguei em toda a minha vida! Acreditei no sonho. Quanto tem dentro desse envelope, senhor?
Meu amigo deu forte abraço no velhinho, que devia ter mais de oitenta anos, e prosseguiu acompanhando a procissão. O velhinho mendigo ficou sentado na calçada, chorando. O seu sonho acabava de ser realizado, exatamente como fora sonhado.
Não é esse o único caso que conheço a me confirmar que realmente a fé pode mesmo remover montanhas.
Outro amigo contou-me que não tendo podido estudar nem aprender outra profissão a não ser a de motoristas, na qual, no tempo da sua mocidade, era muito difícil encontrar emprego no Seridó, pediu a Sant'Ana, em plena procissão de encerramento da sua Festa em Caicó, que lhe mostrasse um meio de se tornar financeiramente independente. Prometeu que por toda a vida, em qualquer lugar do mundo onde estivesse, no dia 26 de julho, compareceria às celebrações litúrgicas da Igreja Católica para agradecer a graça recebida. Se estivesse em Caicó acompanharia a procissão trajando roupa branca e de pés descalços.
Poucos dias depois alguém lhe ofereceu um caminhão seminovo por bom preço. Fechou o negócio com pagamento em módicas prestações mensais e baixos juros. Cinco anos depois era proprietário de sólida empresa transportadora em São Paulo com frota de vinte carretas tunadas novas!
Morreu recentemente em São Paulo onde morava e, como recomendou à família, foi sepultado todo de branco e pés descalços, tal como acompanhava anualmente a procissão de Sant'Ana.
Gloriosa e venerável Senhora Sant'Ana de Caicó: Confiantemente peço vossa celestial permissão para dirigir-vos uma súplica, não em benefício próprio, mas em favor de todo o povo cristão e de todos os não cristãos de espírito ecumênico, filhos da terra seridoense de que sois a divina Padroeira.
Esclareço-vos inicialmente que esse mesmo pedido tenho feito diretamente ao Deus da minha crença, que também foi homem e se chamou Jesus, seu Neto, filho de Maria e José. Não tenho sido atendido, razão pela qual estou aflito, misericordiosa e piedosíssima Sant'Ana, excelsa advogada de todo o povo seridoense. Crescem as superstições, proliferam seitas, degradam-se vertiginosamente a moral e a ética, pouca gente segue cuidadosamente um código religioso seguro e simples como o do cristianismo.
Vós que fostes elevada à dignidade excelsa de avó de Jesus, ó Gloriosa Padroeira de Caicó, ouvi-me, se não como um fiel religioso, pois reconheço não merecer essa deferência, pelo menos como um simples caicoense que tem pleno conhecimento do que pede e total convicção da necessidade e dos efeitos cristianíssimos da graça que espera.
Ouvi-me avó santíssima do cristianismo: Despertai os dirigentes, os políticos e de modo geral todas as pessoas detentoras de algum poder, os ricos, os doutores, os professores, a elite brasileira e todo o povo da nação, de modo especial os caicoenses, despertai-os todos para que leiam com atenção o Sermão da Montanha (imagem ao lado), que um dia vosso Neto proferiu. Nada existe mais simples e mais profundo em matéria religiosa, moral e ética do que esse texto do Evangelho de Mateus. Senhora, a vós suplico porque sois o relicário das mais nobres virtudes cristãs e a Padroeira da minha terra natal, e porque entendo ser indispensável que esse Sermão do vosso Neto seja lido e assimilado por todos para que o mundo, o Brasil e nosso Caicó melhorem.
Fazei com que os maravilhosos ensinamentos nele contidos, as Bem Aventuranças e as normas de conduta moral e ética sejam bem entendidas e praticadas. Não seria racional esperar que a vossa infinita bondade e clemência nos transformem em santos ou beatos; não Senhora, não ousaria pedir tanto, peço-vos tão somente que façais de nós pessoas de bem, decentes, honestas e honradas. É só, Senhora, sapientíssima timoneira da felicidade e da virtude, é somente isso que vos tenho a pedir, acrescentando apenas o que suponho não ser preciso pedir a vossa infinita misericórdia: uma montanha de perdões:
Pelos que nunca leram o belíssimo Sermão, mas são contra tudo quanto nele está escrito.
Pelos que por preguiça mental jamais o lerão, preferindo navegar sem bússola no mar proceloso de ideias contraditórias deste nosso mundo.
Ó Sant'Ana, luzeiro celestial da fé cristã familiar, perdoai também aos que leram e entenderam, mas fingem não terem lido, porque pensam que assim procedendo serão considerados mais modernos e avançados!
Excelsa Senhora avó do Cristianismo, Sant'Ana de Caicó, perdoai aos que riem e debocham da religiosidade do povo; eles não sabem o que é a fé. Nesse sublime particular estão mais para animais irracionais do que para gente que reza e acredita na Comunhão dos Santos.
Iluminai a todos eles, Sant'Ana, para que do Sermão da Montanha aceitem pelo menos o que me parece irrecusável por qualquer pessoa de bom caráter: A essência da Lei Divina: Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles. Em outras palavras: Nunca agir em relação aos outros de forma a não admitir que de igual maneira a mesma ação lhe seja dirigida por alguém.



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