Já tratei nesse espaço dos nossos avós portugueses que emigraram do continente e das ilhas dos Açores para o Seridó. Hoje pretendo encerrar o tema referindo-me a algumas lendas que esse bravos portugueses trouxeram guardadas na saudade da terra natal.
As lendas, para mim, representam as raízes mais profundas da história de um povo. O nosso grande Machado de Assis, com a elegância característica do seu estilo brasileiríssimo, destituído de qualquer afetação, escreveu com toda a propriedade do seu genial talento: ”As lendas são a poesia do povo; elas correm de tribo em tribo, de lar em lar, como a história doméstica das ideias e dos fatos; como o pão bento da instrução familiar.” (O Caçador de Harz, Os imortais, Miscelânea). Fora do Brasil, o escritor, poeta e pensador grego, Níkos Kazantzákis, considerado o mais importante escritor e filósofo grego do século XX, autor de Zorba, o Grego; O Cristo Recrucificado; A Última Tentação de Cristo; e O Pobre de Deus, entre muitos outros romances imortais, que o tornaram líder de bilheteria no cinema e um dos romancistas mais lidos do mundo, escreveu em “Relatório para Greco”: “Existe coisa mais verdadeira que a verdade? Sim, a lenda. Ela é que dá sentido eterno à verdade efêmera.”
Com esteio nesses fortes padrinhos resolvi reproduzir aqui algumas das lendas que nossos povoadores portugueses trouxeram na sua bagagem cultural das regiões de onde emigraram.
ATLÂNTIDA — A Lenda do Reino de Atlântida comum a todas as ilhas dos Açores, tenta dar explicação para a existência do arquipélago. Muito antiga e de origem desconhecida, foi narrada por Platão, sendo já mencionada por este como uma história que lhe contaram.
Na antiguidade teria havido um imenso continente (a Atlântida) no meio do Oceano Atlântico, em frente às Portas de Hércules. Essas portas, segundo mitos antigos, fechavam o mar Mediterrâneo onde atualmente se localiza o Estreito de Gibraltar.
A Atlântida seria um lugar magnífico, com extraordinárias paisagens, clima suave, extensas planícies férteis, grandes florestas de frondosas e gigantescas árvores. Os animais eram mansos, saudáveis e fortes.
Os habitantes dessa terra paradisíaca chamavam-se atlantes, senhores de invejável civilização, considerada perfeita, riquíssima, com palácios e templos cobertos de ouro e outros metais preciosos. Havia abundância de marfim e de madeiras preciosas, muitas minas de todos os metais. Produzia abundantemente o misterioso e lendário oricalco, metal mais valioso do que o ouro!
O império dos atlantes, pródigo em artistas, músicos e grandes sábios, era governado por Poseidon, deus supremo do mar. Seus povos, exemplares no comportamento, não se deixavam corromper pelo vício ou pelo luxo, viviam num pleno e magnífico bem estar que o império lhes proporcionava.
Também eram bem exercitados na arte da guerra, pois povos invejosos sempre cogitaram invadir as terras atlantes. Todavia, dada a supremacia militar do seu exército muitas outras ilhas e territórios foram conquistados pelos atlantes.
Em consequência das repetidas vitórias e da expansão territorial o povo atlante encheu-se de vaidade e orgulho, declinando para o enfraquecimento moral, ofendendo a gloriosa vontade do deus supremo. Poseidon resolveu castigá-lo com grandes movimentos tectônicos, enormes tremores de terra. O mar, com ondas gigantes, afogou aldeias e cidades. Atlântida desapareceu na imensidão do mar, dela restando apenas os altos cumes que sobre a superfície das águas pareciam flutuar.
Dava-se, então, o nascimento das nove ilhas dos Açores.
NOSSA SENHORA DOS MILAGRES — A Lenda da Ermida de Nossa Senhora dos Milagres é uma tradição do século XVI da ilha do Corvo, nos Açores.
Alguns homens andavam pela costa à procura de restos de madeira trazidos pelas ondas do mar para queimar como lenha. Encontraram, então, pequeno caixote a flutuar na linha da maré.
Estranhando o objeto, abriram-no cuidadosamente. Dentro estava uma pequena imagem de Nossa Senhora a que só mais tarde os corvinos passaram a chamar Nossa Senhora dos Milagres. A notícia do achado correu pela ilha e em pouco tempo as pessoas juntaram-se no local para ver a santinha. A imagem trazia inscrição gravada em seu pedestal: "No lugar onde eu sair, façam-me uma ermida". Quando as autoridades de Lisboa tomaram conhecimento da ocorrência, ao invés de aprovarem a construção da ermida, ordenaram fosse a imagem imediatamente enviada para a capital do reino.
Apesar de revoltados, os locais não puderam impedir a partida da imagem, que foi levada para igreja de Lisboa, onde ficou em lugar de destaque num altar dourado, mas coisas estranhas começaram a acontecer.
Todas as manhãs a imagem aparecia molhada. Ficou evidenciado que à noite ela saía do altar, atravessava mais de mil quilômetros de mar, até a ilha do Corvo, de onde retornava ao amanhecer do dia seguinte para a igreja onde a tinham colocado!
Lisboa, então, resolve devolver Nossa Senhora dos Milagres à sua modesta ermida, construída sobre a rocha mais alta no local onde tinha aparecido na ilha do Corvo, onde até hoje se encontra.
OUTRAS LENDAS — A mitologia açoriana é vasta, repleta de lendas muito interessantes como a do Monte Brasil da Ilha Terceira sobre a paixão de um príncipe dos mares por uma princesa que vivia próximo aos seus domínios. Na ilha do Pico existe a belíssima lenda do bravo e fiel cachorro cujo nome teria batizado uma enseada da Ilha — a Calheta de Nesquim. Da ilha de São Miguel é a lenda do Bispo Genádio e as Sete Cidades. O bispo, que era necromante, fez um vulcão explodir sua ilha para que uma filha de criação não casasse contra a sua vontade. Na ilha de São Jorge domina a lenda de um padre que ficou colado ao chão, sem poder andar, ao tentar transferir a imagem de Cristo do seu tradicional altar para outro. Enquanto não desistiu da pretensão, permaneceu sem poder se movimentar. Na ilha de Flores a lenda tem origem numa imagem de Santo Amaro que, proveniente de embarcação naufragada, teria chegado à costa da ilha, local, único em que a imagem aceitou ficar, onde lhe foi erigida uma igreja, pois com Santo Amaro acontecia o mesmo fenômeno já verificado com Nossa Senhora dos Milagres. Na ilha Graciosa a lenda é a da jovem noiva que foi carregada pelo Diabo!
Certamente, no alvorecer das tradições banhadas pelo rio Acauã, esses bravos portugueses transmitiram a seus descendentes brasileiros todas essas preciosas sementes culturais. Em Caicó, à margem de um poço no rio, erigida sobre o pedestal de uma comovente lenda local, acabava de ser proclamada a padroeira da região, a Gloriosa Sant'Ana, fé mais ardente e profunda da devoção seridoense. Tudo sob o olhar radiante do intrépido desbravador português Manoel Fernandes Jorge (57 anos de idade), o fundador da povoação, da vila e da cidade que viria a ser a Rainha do Seridó.




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