O insuperável Antônio Vieira em seu sermão da Quarta-Feira de Cinza, pregado em Roma em 1672, tornou axiomático o que parecia óbvio, mas passava despercebido principalmente aos que supunham morto o passado da humanidade. Dos que só acreditam no presente, no novo, no moderno, no hic et nunc dos azafamados e impacientes. O presente — alertou Vieira, é o futuro do passado e o passado do futuro! Isso significa dizer que as lendas antigas, universais, emoldam hodiernamente o futuro por elas prenunciado. Amanhã poderão ser ignoradas, até ridicularizadas, se os homens não estiverem devidamente preparados para, com inteligência, racionalidade e sabedoria, fruírem das inumeráveis e fantásticas oportunidades que os novos tempos vão oferecendo. Mas o amanhã poderá não ter o esteio do passado, se os homens não souberam extrair dele quanto nele se continha de futuro. O porvir será o presente, um agora ofegante de artificialidade, sem memória. Vazio de criatividade, imediatista e até certo ponto escravizante.
Parece inegável que desde o lendário Hefesto, chamado Vulcano pelos romanos, ferreiro mitológico que fez todos os tronos do palácio do Olimpo e criou inumeráveis equipamentos até hoje considerados moderníssimos, nada existe na face da terra que não tenha sido previsto com séculos de antecedência. Lavoisier, no século 18, com absoluta propriedade científica, confirmou: "Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma."
Foram essas as convicções consolidas em meus conhecimentos ao terminar de ler, recentemente, Os Oito Pilares da Sabedoria Grega, livro espetacular de Stephen Bertman publicado este ano pela Editora Sextante (imagem acima). O professor Stephen Bertman é PH.D. em literatura clássica e autor de muitas outras obras igualmente importantes como A arte e os romanos;Conflito de gerações na Grécia e Roma antigas; Hipercultura; Manual para a vida na antiga Mesopotâmia, etc.
Muito pouco me impressionam os incríveis avanços da tecnologia, seja na informática, nas telecomunicações, na medicina, na química, na agropecuária, na indústria e na facilitação da vida das pessoas, diminuindo-lhes trabalho e ampliando lazer. O ser humano existe para evoluir constantemente até atingir a perfeição.
O que realmente preocupa é o grave atraso social e moral da humanidade em relação aos seus galopantes avanços materiais.
Esse é o ponto principal do livro, mostrar como a Grécia clássica, por sua literatura mitológica, estratificou os oito princípios básicos para o desenvolvimento do patrimônio imaterial de um povo, de modo a que este passe a ser muito mais importante do que o valor dos bens materiais. E que o valor real e permanente das pessoas vem da sua força intelectual e moral e não das coisas que ela possui, por mais valiosas que sejam.
Mas quais são esses princípios? Como foram transmitidos através dos séculos? Ideias tão antigas valem para a atualidade?
Como ponto de partida para o início do aprendizado convém enfatizar que a vida é muito curta para ser desperdiçada. Os gregos da antiguidade clássica tinham sempre em mente que deviam aproveitá-la integralmente e ao máximo. E que é preciso aprender a viver para evoluir e alcançar a felicidade.
Como? Sigamos os ensinamentos da sabedoria grega sintetizados pelo professor Stephen Bertman (foto ao lado). Depois formulemos nossas conclusões, pois cada homem é o artífice do seu próprio destino.
O Gregos orgulhavam-se de suas aptidões humanas e acreditavam que podiam realizar grandes coisas. Eram humanistas. O homem na Grécia antiga não era a imagem de nenhum dos seus deuses, mas estes, sim, eram a imagem do homem, porque repetiam o comportamento humano em todos os seus aspectos. Os gregos só acreditavam neles mesmos para a formulação do destino individual. Nesse ambiente, o filósofo Protágoras afirmou: O homem é a medida de todas as coisas.
A busca da excelência era outra ideia inata aos gregos. Criaram os Jogos Olímpicos para mostrar aos deuses até onde podia chegar a dedicação humana na busca da perfeição. Criaram o teatro para agradecer o vinho ao deus Dionísio! Tentavam sempre tudo realizar da melhor maneira possível. Por isso perpetuaram tudo quanto fizeram. Até o cavalo de madeira da lendária Guerra de Troia.
Outro mandamento inviolável: Nada em excesso. Moderação e bom senso em todas as coisas. Quando voar, para não cair, como Ícaro, mantenha-se nem muito baixo nem muito alto.
Parece-me que o mais importante dos princípios é o CONHECE-TE A TI MESMO gravado no frontal do templo de Apolo em Delfos. A Bíblia — registra Stephen Bertman, diz que o temor do Senhor é o princípio da sabedoria. Para Sócrates, o começo da sabedoria era a franca admissão da própria ignorância, seguida pela determinação de fazer algo a respeito.
O quinto princípio refere-se ao emprego da razão. Nesse ponto mais que em qualquer outro se destaca a importância da moderação, pois “a nossa vida não é um cabo de guerra entre sentimentos e lógica. Agir somente de acordo com as emoções não nos garante a felicidade. E apenas a lógica não nos torna humanos”. A velha mitologia, nesse particular, é repleta de fulgurantes e sensacionais exemplos.
Segue-se a questão da curiosidade. Uma sociedade que evolui precisa de pessoas curiosas, que saibam formular perguntas inteligentes, em todas as posições sociais. Não bastam os cientistas e inventores, que são pagos para serem curiosos. Há séculos o filósofo Heráclito dizia que ninguém entra no mesmo rio duas vezes, porque ele está sempre mudando. Assim é a sociedade, a cada dia necessita de novas invenções para ajudar o homem a enfrentar as novas mudanças.
O penúltimo dos princípios gregos é o do amor à liberdade. E a partir desse amor eles criaram a Democracia, maior invenção posta a disposição da humanidade para facilitar a sua evolução. Mas, como ensina a mitologia desse mesmo povo, somos livres para ser civilizados como os lápitas ou bárbaros como os centauros.
Finalmente, o individualismo puro, isento de qualquer assomo de egoísmo. O individualismo entendido como sendo o orgulho de nossa singularidade como pessoa e de nossa capacidade individual para realizar grandes coisas. O individualismo como o dos heróis da Ilíada e da Odisseia de Homero, manifestação de liberdade e não de opressão. O julgamento pelo júri, tal como o conhecemos hoje, nasceu das entranhas do individualismo grego desses velhos tempos.
Por que computador no título desta crônica? Que tem a ver mitologia com informática? Explico-me.
Hefesto, o deus ferreiro, é a lenda que mostra com todas as letras não existir nada de novo na face da terra. Por mais original seja o que escrevemos ou imaginamos, alguém já produziu algo parecido antes; por mais criativa que seja nossa invenção, alguém já pensou em fazer algo parecido no passado. Quando Santos Dumont voou pela primeira vez havia séculos que, nas asas da criatividade da mitologia, Dédalo havia praticado a mesma façanha ao lado do seu filho Ícaro!
Hefesto, gênio da inventividade dos deuses e heróis mitológicos, produziu, entre muitos outros equipamentos prodigiosos, o elmo alado e as sandálias velozes de Hermes; a armadura de Aquiles; o arco e flecha de Eros; a célebre cinta de Afrodite e a carruagem de Hélios! Todavia entrou no título desta crônica por suas atividades no moderníssimo campo científico da robótica.
Hefesto, como descreve Homero na Ilíada, construiu máquinas humanoides de bronze (robôs?) que o ajudavam na execução dos seus estupendos trabalhos! O palácio de bronze por ele próprio construido e onde morava era equipado com muitos servos autômatos. Para a sua oficina construiu tripés que tinham autonomia suficiente para, em poucos instantes, conduzindo peças e equipamentos, percorrer a distância que a separava do Monte Olimpo, de onde, com a mesma rapidez, retornavam à oficina. E a temperatura de seus foles era regulada automaticamente pela voz do operador!
Com seus princípios, heróis e deuses as lendas helênicas parece pretenderem sugerir ser fácil, com os meios hoje em dia postos à disposição de todos, qualquer pessoa conquistar a felicidade na vida e a imortalidade na eternidade. Basta sonhar tão alto quanto os gregos sonharam!




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