Se eu entendesse de Copa do Mundo tanto quanto sei a respeito de Festa de Sant’Ana talvez ousasse pretender até a presidência da FIFA, ou pelo menos, dirigir time de futebol de poeira em Caicó, desses que, sem dúvida, estão entre os melhores do mundo!
Infelizmente dessa matéria nada entendo, sou completamente analfabeto. Nem torcedor sou. Falta-me entusiasmo. O futebol só desperta a minha atenção de quatro em quatro anos, por ocasião da Copa do Mundo, quando torço apaixonadamente pelo Brasil.
Ano passado fui procurado por aluna do segundo grau, minha parenta, para responder algumas questões sobre a Copa do Mundo na África do Sul. Exibiu-me longa lista de enunciados para que escolhesse um a respeito do qual manifestaria meus pontos de vista ou opiniões. A estudante, depois de entrevistar algumas pessoas, redigiria o trabalho escolar de conformidade com o solicitado pelo professor.
Escolhi manifestar-me quanto ao que ficara realmente retido na minha memória referente à Copa de 2010, pequenos atos e fatos que somente grandes e raríssimos eventos plurivalentes podem produzir.
Primeiro, para espanto geral do mundo, a presença do uma torcedora tão desinibida e sensual como Larissa Riquelme (foto acima), modelo paraguaia, 25 anos de idade, cujos seios empolgavam muito mais do que as melhores jogadas da seleção de seu país. Quando o Paraguai foi desclassificado, a ausência dela da telinha dos televisores provocou consternação universal, via internet. Foi considerada a musa da Copa.
Outro personagem marcante foi Diego Maradona (foto ao lado), maior mito esportivo da Argentina, técnico da seleção na Copa. Maradona revelou-se o showman da temporada, carregando de humor o seu trabalho à beira dos gramados enquanto seus vigorosos pupilos corriam atrás da bola. Sua gesticulação impetuosa e os acenos e trejeitos angustiados nos vaivéns do seu nervosismo elevaram-no ao reconhecimento público de pai da seleção. Tornou-se marco inesquecível da Copa de 2010.
Não se pode esquecer nunca o estardalhante sucesso da jabulani, a bola da FIFA, produzida pela ADIDAS, com suas 11 cores, representando os 11 jogadores de cada seleção, os 11 idiomas oficiais da África do Sul e as 11 tribos que formam a sua população. A jabulani foi uma das vedetes da imprensa, terror dos goleiros, tábua de salvação para jogadores se justificarem de falhas no desempenho. Na verdade, uma bola nunca tinha sido tão massacrada e elogiada ao mesmo tempo. Estará sempre presente entre as agradáveis lembranças dessa Copa.
E as estonteantes vuvuzelas? Quem pode esquecer o barulho que fizeram? Nunca se tinha visto nada igual em jogo da Copa do Mundo. Nunca! O seu som ensurdecedor tornou-se marca registrada dessa primeira Copa na África.
E o nosso Robinho? Para mim, não obstante as inúmeras opiniões divergentes, apresentou o melhor desempenho da seleção brasileira. Com velocidade e destreza, estilo original e criatividade, proporcionou ao Brasil alguns instantes de forte vibração e entusiasmo. Se todos tivessem apresentado performance igual à de Robinho (foto ao lado) teríamos conquistado a vitória com a qual sonhamos desde 2002 — o hexacampeonato brasileiro na Copa do Mundo.
Finalmente, não posso deixar de registrar uma opinião muito pessoal, mas que reputo justa e importante. Refiro-me à canção Wavin’ Flag de K’ Naan, cantor Hip-Hop, executada na abertura da Copa da África de Sul. Sei que o hino oficial da copa é Time for Africa, canção composta e cantada pela colombiana Shakira. Pouco me importa seja Wavin Flag música executada pela propaganda de empresa patrocinadora da Copa, isto em nada diminui a emoção que ela me causou quando a ouvi, na cerimônia de abertura, pela primeira vez. Sempre que me refiro a essa Copa ouço emocionalmente a canção de K’ Naan e não a de Shakira. Wavin Flag, para mim, marcou indelevelmente a África do Sul de 2010. As duas canções estão em vídeos do You Tube. É só conferir.
Se para mim restaram essas migalhas de recordações, para a África do Sul o que efetivamente permaneceu?
Pelo que tenho lido esses resultados não são animadores. O elevado custo para a implantação da infraestrutura exigida pela FIFA não tem oferecido o esperado retorno. Os cinco estádios construídos e os quatro reformados encontram-se subaproveitados por falta de torcida. Estão sendo utilizados para outros eventos não desportivos ou permanecem completamente inaproveitados! Só depois da Copa a África do Sul caiu na realidade. Na verdade, os resultados advindos para o país estão muito aquém do esperado. Lá, como aqui no Brasil, a propaganda oficial prometia mundos e fundos ao povo, como se a Copa fosse panaceia para todos os problemas do país, principalmente para melhorar a vida dos mais necessitados que recebem a Bolsa Família e dos milhões de miseráveis que vivem abaixo da linha de pobreza. Trata-se de propaganda enganosa para ocultar do povo os milhões que vão ser gastos para atender exigências da FIFA.
A maioria das pessoas sequer nota que a Itália, França, México, Alemanha e EUA já realizaram duas ou mais Copas do Mundo. Esses países não demoliram seus prédios históricos, nem depois das Copas ficaram mais ricos ou mais pobres. Os EUA já realizaram quatro Copas do Mundo e mais cinco dos Jogos de Inverno! E tudo continuou como d’antes no país.
Escrevi tudo isso só para, afinal, registrar minha despedida do velho Castelão que o Governador Cortez Pereira chamou de “um poema em concreto” ao inaugurá-lo.
A FIFA exigiu a demolição do Castelão (hoje chamado Machadão, foto à esquerda) e o Estado prontamente concordou com essa idéia maluca que vai custar uma fábula ao Tesouro estadual. Dizem que com o Castelão vão ser sacrificados também o Ginásio Humberto Nesi, o Kartódromo Geraldo Melo, o Centro Administrativo do Governo do Estado e o Papódromo João Paulo II!
Calculam os entendidos que o Brasil deve investir na Copa de 2014 nada menos do que 800 bilhões de reais! Li recentemente que o gasto do Rio Grande do Norte com o novo estádio — Arena das Dunas, soma quantia suficiente para construir cerca de 80 hospitais de primeira linha ou 3000 (três mil) apartamentos de 120 metros quadrados. Se preferisse, o governo poderia asfaltar 700 quilômetros de estradas!
Acrescento por minha conta que essa dinheirama toda certamente daria para construir pelo menos uma moderna quadra polivalente de esportes em cada um dos municípios norte-rio-grandenses. E talvez ainda sobrasse dinheiro suficiente para melhorar as áreas esportivas e de lazer de Natal, tão carente nesse aspecto, pois até o belíssimo Parque da Cidade, inaugurado em 2008, continua abandonado pela administração pública. Uma vergonha! Aflijo-me só em pensar ter de esconder dos turistas da Copa esse vergonhoso descaso, ou, seja lá o que for, desleixo ou incompetência.
Entendo que um país só deveria aceitar realizar Copa do Mundo se tudo acontecesse mais ou menos como na Festa de Sant’Ana de Caicó, quando a cidade quase que dobra a sua população, mas o evento transcorre normalmente, não obstante alguns pequenos transtornos. Da Festa todos saem satisfeitos e felizes, muitos com a reserva da hospedagem garantida para o próximo ano.
E assim o evento seridoense repete-se anualmente, crescendo sempre. A cada ano renova sua posição de maior festa sociorreligiosa do Estado. E suponho que a Prefeitura e a Igreja jamais contraíram empréstimos para pagamento a longo prazo destinado a realização da Festa de Sant’Ana. Pelo contrário, ao final do evento, os seus promotores apenas computam as receitas positivas, doações, contribuições, arrecadações e lucros. Todos ganham, ninguém perde.
O pessoal da FIFA e os demais responsáveis pela promoção da Copa precisam vir a Caicó, na Festa de Sant’Ana, ver com os próprios olhos como se promove um grande evento sem sacrificar financeiramente o anfitrião do certame.
Adeus Castelão, adeus! Perdoe o erro do passado de não o terem construído em Caicó!
Cantemos Wavin Flag: “Ohhhooohoooohooo woooohooo ohooohooohooo / Quando eu ficar mais velho, ficarei mais forte / Eles me chamarão de liberdade como uma bandeira ao vento”.




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