Monday, June 13, 2011

ARTIGO

Um gênio das lavouras poéticas
Janduhi Medeiros


No ano de 1909, no interior do Ceará, nascia um desses nordestinos de dar orgulho na raiz da alma. Falo de Antônio Gonçalves da Silva, o maior poeta das roças e da caatinga, mais conhecido nas serras e lavouras poéticas como Patativa do Assaré (foto). Descendente do sertão e da humildade. Astuto, forte pela natureza da sua terra e consciente da injustiça social maldosamente plantada no seu chão. Mas, impressionantemente, transformou o seu labor ardente e o seu convívio singular em ação concreta, mensagens e exemplos de vida, tendo o verso e a prosa como instrumentos permanentes do embate. Com legitimidade representou o calor da realidade e da moral humana em meio ao sertanejo injustiçado de nossas terras áridas. 
Arrebatado pelos valores do sertão, pelo instinto de escrever e de ler cordel, converteu o desamparo permanente de uma região e de uma raça em documentários, filmes, debates, livros, teatro, músicas, estudos, reflexões. Procurou entender o vigor natural do sertanejo, tendo como alicerce o seu próprio mundo de injustiças e pelejas, seu terreiro sentimental. Assim, atraiu atenções e espalhou na sensibilidade de muitos terreiros e mentes, versos, rimas, textos, métricas, melodias e eternas partidas de vidas dos irmãos rejeitados pelos seus patrícios. 
Ao contrário do que se possa imaginar, Patativa do Assaré sempre estudou e sempre leu. Conheceu grandes autores e bons livros. Na escola, é verdade, estudou pouco, mas era autodidata, tinha instinto de saber, era filho do Nordeste, não negava a sua origem, como ele mesmo cantava. Leu a obra de Castro Alves, Camões, Manoel Bandeira e a valiosa e resistente literatura de cordel. Podia ser um poeta erudito, com muita maestria, até Drumonnd reconhecia isso, porém preferiu a beleza da poesia popular, o verso singelo de sua gente e a métrica perfeita da realidade de sua aldeia. 
O Nordeste homenageia eternamente Patativa do Assaré com muito orgulho. Ainda em vida, o poeta fora reconhecido e glorificado em salões oficiais e universidades como o maior poeta popular do Brasil. Seu cartaz alcançou outras terras. Professores de universidades da Europa, principalmente da França, se apaixonaram pela literatura de cordel e levou para as bibliotecas do velho continente a festejada obra de Patativa, o gostoso sabor literário do sertão nordestino. 
Todas as homenagens são oportunas e merecidas, porém, é bom lembrar que a gentileza que Patativa mais adorava era a realidade de um pé-de-parede, uma esquina de bodega numa feira aquecida pelo verão da caatinga, um desafio de um repente, uma cantoria nas madrugadas do cariri, um par de violas na atmosfera poética do sertão - a sua real e verdadeira escola. Um gênio que, dignamente, fica registrado para sempre na história cultural do Nordeste e do Brasil, da interiorana cidade de Assaré, e de um pequeno ciclo de gente que ainda, por sua sensibilidade cultural, sabe reconhecer um grande e verdadeiro poeta e uma obra de valor, para que não se desmanche no esquecimento, tragado pela perversa banalização da cultura mercantilista.

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