Thursday, June 23, 2011

ARTIGO

A grande epopeia da luta sertaneja 
Janduhi Medeiros


É possível afirmar com esmera tranquilidade que a grande epopeia, da luta cotidiana do sertanejo contra a repressão e incompreensão promovida pelas elites oficiais do final do Século XIX, é o livro “Os Sertões”, obra brasileira da melhor qualidade, escrita por Euclides da Cunha (foto) e publicada em 1902. O livro relata a Guerra de Canudos, no sertão da Bahia, nos idos de 1896/1997, com uma impressionante imparcialidade, como forma de denúncia.
É importante ressaltar que Euclides laborou como correspondente do Jornal O Estado de São Paulo, boa parte da guerra. Porém, quando retornou ao Rio, ainda nos primeiros anos de república, juntou os artigos divulgados e outros rascunhados, elaborou e editou um dos melhores livros no país. O livro Os Sertões pode ser entendido como uma prosa lírica bem como uma obra científica, por abordar temas sociológicos, geográficos e históricos do homem sertanejo, com uma narração alicerçada em fatos e estudos, mas com pintura lírica. 
O livro, por ser bem escrito, inovador e revolucionário, virou obra-prima, já tem mais de trinta edições em português e traduzido em diversos idiomas, abrangendo mais de sessenta países. Ao afirmar que o sertanejo “é antes de tudo um forte”, Euclides produziu espanto e a sua celebre obra provocou e provoca efeitos até hoje na crítica científica e literária, por dar força às pesquisas sociológicas bem como ao naturalismo/realismo, que na época era principiante, enfrentando o consagrado romantismo do poderoso Machado de Assis. 
Assim como a república venceu a monarquia no final do século oitocentista, a literatura sertaneja no início do novo tempo se consolida como tradição e muitos estudiosos se convencem que a raiz de uma literatura nacional é puramente rural, extraída da raiz natural dos valores da roça - e não urbana, como tentou imprimir os machadianos. A obra Os sertões consolida a capacidade do homem interiorano, o ser da terra e da luta, excluído da história, e caminha com firmeza e naturalidade entre os trilhos da sociologia e da literatura, desmistificando o pensamento de uma elite dominante, que tentava construir uma nação apenas sob a influência do sopro europeu, que se ancorava e se deleitava nos bares e cabarés das madrugadas, do imenso litoral brasileiro. 

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