Saturday, August 6, 2011

Mulher de negócios

Cecile D´Avignon

Meu sonho nunca foi me tornar uma mulher globalizada, que faz sucesso no mundo dos negócios. 
Mas o grau de instrução da patuleia é tão subterrâneo que qualquer uma que consegue fazer bom uso da própria língua e da dos outros, consegue subir rápido no ambiente corporativo. 
Eu não quero subir em lugar algum, abro exceção (e pernas) apenas para o pau de um bom homem, que queira me transformar em dona do seu lar.
Antes que alguém me venha de putaria, pensando que eu tenho metido língua no cu dos meus superiores para ser promovida, digo que não. 
Eu meteria, sim, no furico de quem quisesse para que me deixassem em paz. 
Que esquecessem que esta mulher perfumada e culta existe na empresa.
O problema é que eu não tenho respeito por ninguém e não reconheço “superiores” só porque o indivíduo tem um cargo temporário de chefia. 
Eu só admito superioridade intelectual. 
E estes bostas são uns inferiores, uns inúteis que mereciam ser enrabados por uma cartilha do ABC.
Por conta desta cambada de ignorante, gentinha medíocre mal alfabetizada que não sabe nem usar o corretor ortográfico do email, sou obrigada a ascender na profissão. 
Agora tenho que viver de malas prontas para viagens internacionais. 
Reuniões internacionais. 
Problemas internacionais. 
É preciso ter culhão para aturar tudo isto e eu tenho apenas um par de ovários irritadiços que produz óvulos que não são fecundados por rola alguma.
Os homens temem as intelectuais. 
Se for de sucesso, fodeu. 
Ninguém me faz um filho. 
Desse jeito, minha estirpe culta não vingarará.
Talvez o problema seja meu, que uso os homens para fins recreativos e não reprodutivos. 
Escolho demais.
Bem, cansei. 
Não aguento mais. 
Tudo o que eu queria era ser mãe e esposa feliz, cheia de bobs na cabeça e creme da Dior na cara. 
Passar o dia de perna pra cima, dando de mamar a um par de gêmeos, assistindo a novela das 3.
Mas cá estou eu, andando num salto de 12 cm por corredores compridos e gelados, tendo que fazer cara de competente para todo mundo, sem hora para ir no salão de beleza. 
Abuso.
Enquanto eu trabalho para estes colonos, meu Dostoievski está enconstado na estante.
Vou dar para o servente que acaba de me perguntar se está frio ou quente no centro dos Estados Unidos.

No comments:

Post a Comment