Sunday, August 7, 2011

A lenda do Carneiro Dourado


7 de agosto de 2011
A lenda do Carneiro Dourado

Começou no último dia 5 e se prolongará até segunda-feira, dia 15, a Festa de Nossa Senhora da Guia de Acari, um dos maiores eventos puramente religiosos do interior do Rio Grande do Norte. Minha mãe era acariense, assim como meu avô, José Ursulino de Medeiros e toda a minha ascendência de parentesco pelo lado materno. Ainda criança, com minha mãe, vim algumas Festas da Padroeira de Acari. E de 1962 até agora, ininterruptamente, tenho estado presente em Acari nesse período festivo. Acari de Nossa Senhora da Guia, cidade limpa, simples e tranquila, cercada de serras e fonte de muitas histórias e lendas; Acari do Gargalheiras, do Museu do Sertanejo e do Santuário de Nossa Senhora do Rosário tem tudo para se tornar a mais turística cidade interiorana do Estado. Ao Acari de Nossa Senhora da Guia, de dona Jacinta e de meus tios Delzira e Tarcísio dedico a série de crônicas que hoje inicio para contar uma das belíssimas lendas das suas misteriosas serras.
Não só em Caicó, mas em todo o mundo são comuns as lendas de acontecimentos sobrenaturais, principalmente nos velhos cemitérios do tempo em que os mortos podiam ser sepultados em qualquer lugar, principalmente nas igrejas.
Em Caicó, anteriormente aos cemitérios São Vicente e São Jorge, sepultamentos eram feitos nas igrejas do Rosário e de Sant’ Ana. Depois de 1867 passaram a ser feitos no chamado Cemitério Velho, no local onde hoje está prédio da Diocese que por muitos anos sediou a Rádio Rural. 
Antes do Cemitério Velho construído por determinação legal, tendo em vista a que proibiu sepultamentos nas igrejas ou em cemitérios não oficiais, em propriedades particulares, Caicó teve vários cemitérios. O cemitério da Pedra do Moleque, o do Estreito, o dos  Batentes, o da Ilha e o da Cólera são os de maior destaque no lendário regional de aparições sobrenaturais. 
De cada um deles há muitas histórias de aparições de almas penadas, assombrações, fantasmas, encantamentos e botijas!
Esta história é uma das muitas lendas secularmente repetidas no Seridó, com mais intensidade na região onde hoje são localizadas as belas e acolhedoras cidades de Acari e Carnaúba dos Dantas, palco do genocídio de que foram vítimas os índios Tapuias. 
Domingos Jorge Velho e seus comandados, cujo quartel general era localizado nas imediações do rio Acauã, hoje Seridó, em Caicó, dizimou cruelmente, cerca de 1.500 nativos, a maioria por degolamento, em apenas duas investidas!
Os cadáveres das vítimas não eram enterrados, mas deixados expostos para serem devorados pelos urubus e demais bichos que se alimentam de carniça! Surge daí a lenda do Carneiro Dourado.
Muitas pessoas diziam ter visto, sempre nas noites de 31 de dezembro para primeiro de janeiro, por volta da meia-noite, um carneiro dourado que, brilhando como ouro reluzente ao sol, desloca-se, veloz, do cume da serra da Rajada para o da serra do Marimbondo.
A notícia do fabuloso acontecimento rapidamente correu mundo. Houve entrada de ano-novo comemorado com centenas de pessoas aglomeradas nas proximidades das duas serras, olhos fixos no céu, umas rezando, outras suando ou chorando de emoção, algumas cantando hinos religiosos, enquanto, ansiosas e piedosamente, aguardavam a passagem do carneiro dourado.
Quando os holandeses dominaram a Capitania do Rio Grande, no segundo quartel do século XVII, pilharam ouro e pedras preciosas das terras dominadas por mais de vinte anos, ou seja, até serem expulsos do território invadido.
O Seridó era habitado pelos tapuias, índios hostis aos portugueses e aliados dos holandeses.
Quando os invasores foram vencidos e expulsos, alguns comandantes holandeses e subordinados das tropas no Rio Grande, desesperados e assombrados, recorreram aos tapuias localizados no topo da Rajada (que nessa época chamava-se Serra da Acauã) para que lhes dessem guarida segura e os ajudassem a esconder o valioso tesouro que conduziam. 
Os índios esconderam cerca de cem quilos de ouro e uns vinte quilos de pedras preciosas dentro de uma loca, que acabaram de encher com barro e piçarra.  Depois rolaram uma grande pedra e taparam a boca da loca.  Aí ficou enterrada a botija dos holandeses que nunca mais voltaram ao local.
Próximo ao esconderijo do tesouro havia enorme imburana no cimo da qual um casal de acauãs, ao sair e ao por do sol, cantava diariamente.  E daí voava sempre em direção à serra do Marimbondo.  Raramente eram vistas à tarde quando retornavam à velha imburana, mas, a boquinha da noite, o canto delas ecoava por todos os penhascos e boqueirões das inúmeras serras que emolduram a região.
Anos depois irrompeu a chamada guerra dos índios contra a ocupação de seus territórios. Domingos Jorge Velho foi nomeado chefe da tropa de combate aos nativos rebelados. Na serra da Rajada deu-se o maior combate da guerra.  Domingos Jorge Velho escravizava as mulheres, filhas e irmãs dos vencidos e as submetia sexualmente, não raro com extrema violência, a seus desejos dissolutos mais torpes! 
Calcula-se que mais de mil filhos de Domingos Jorge Velho, com índias escravas, foram gerados no Rio Grande.  
E justamente por isso foi que a índia Iaciara, uma das violentadas pelo sadismo de Domingos Jorge Velho, rogou-lhe uma praga no exato momento em que presenciava a decapitação do marido.  Aos brados invocava os demônios para que o exterminador dos tapuias e todos os seus descendentes jamais pusessem às mãos no tesouro que os índios mortos protegiam com a vigilância do inatingível carneiro dourado e das suas imortais acauãs, os filhos das estrelas!
As índias violentadas por Domingos Jorge Velho tomaram chás e outras infusões abortivas. Foram poucas as crianças que sobreviveram.  A filha de Iaciara nasceu morta. A maldição vem sendo cumprida.
Iaciara e algumas outras tapuias, acolhidas pelos colonizadores em cujas propriedades se refugiaram, viveram muitos anos e se aculturaram. Houve até uma delas que se casou com um branco, filho de fazendeiro.
Iaciara todo dia 31 de dezembro sumia e só retornava para a sua choupana no dia 2 de janeiro do ano seguinte.  Ninguém nunca descobriu para onde se dirigia nem o que ia fazer.  Sabe-se, apenas, que ela era a única pessoa do mundo que sabia onde estava escondido o valiosíssimo tesouro dos holandeses!
Dizem também que nunca morreu. Já bastante idosa, no dia 31 de dezembro de 1799, saiu de casa e nunca mais retornou. As demais índias que com ela conviviam tinham como certo que ela se transformara numa acauã!
O ritual das acauãs ainda hoje ocorre e de 1800 até nossos dias foram registradas diversas ocorrências sobrenaturais relacionadas com o lendário tesouro holandês escondido pelos índios tapuias nas serras do Seridó. 
Diziam os mais velhos habitantes da região que as acauãs, guardiães do tesouro encantado e o carneiro dourado, representação celeste do poder transcendente do sofrimento coletiva dos índios tapuias do Seridó, têm funções sobrenaturais diferentes.  As acauãs afugentam caças e, consequentemente, afastam os caçadores das imediações do esconderijo, ou seja, evitam ao máximo a presença do ser humano no local. Ao mesmo tempo, com o seu canto matutino e vespertino, avisam ao carneiro dourado que está tudo tranqüilo no esconderijo. O carneiro dourado, por seu turno, acompanha no mundo a população das diversas gerações descendentes de Domingos Jorge Velho.
Domingos Jorge Velho morreu solteiro.  A grande natimortalidade provocada pelas índias por ele violentadas quase não lhe proporcionou descendência.  Presu-me-se que há muitos anos ela tenha definitivamente desaparecido.
A caça ao tesouro encantado continua intensa pelo menos na imaginação lendária seridoense. (Continua no próximo domingo)
Procurador federal e ex-prefeito de Caicó

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